
A expectativa de que um encontro amoroso seja o início, o meio e o fim – finalidade -das nossas existências, faz com que o término de um relacionamento deixe marcas indeléveis. Não importa o quão satisfeitos estejamos em uma relação, qualquer separação vai atualizar a separação original, fundamental e fundante que experimentamos um dia - daí vem o termo “angústia de separação”. Perceber que a mãe existe além de nós e deseja para além de nós é uma inexorável tragédia. Assim dá para entender por que o afastamento do outro é desproporcional ao sofrimento vivido numa separação, voluntária ou involuntária. Na verdade, o luto é sempre outro e, quando o elaboramos, também é sobre uma perda outra que não esta que acreditamos ser. A sensação é a de ter perdido pai e mãe de uma só vez, quando ainda se é prematuro. É preciso encarar o vazio e o silêncio da casa que foi um dia o palco de promessas onipotentes de completude e suficiência. Vemo-nos regredidos como bebezinhos dependentes dos cuidados do outro para sobreviver. Sentimos que aquele que saiu levou consigo todos os objetos bons – está feliz e credenciado - e que nós ficamos com todos os ruins – estamos tristes e duvidosos. O desconsolo vai e vem. Tentamos, em vão, catalogar pensamentos e sentimentos, numa eterna retroação, mas a veleidade e fluidez com que se apresentam deixa-nos somente aturdidos. Estamos sujeitos a uma bipolaridade reativa. Há momentos de maiores certezas e menos dúvidas, e outros onde a culpa e o arrependimento são os moderadores de tudo. À decisão de se separar estará irremediavelmente alienada a ambivalência entre o conhecido e o desconhecido. Inconstantes, imprevisíveis, instáveis, indefiníveis, incertos, incoerentes... Poderia utilizar mais uns dez adjetivos “ins” para descrever as ideias arbitrárias que culminam num “loop” de emoções daqueles que optam por não mais dividir a mesma casa. Mas, a complexidade da questão é que nem um desses adjetivos ou mesmo todos eles juntos dariam conta de nomear essa “coisa” que dá dentro da gente após uma separação. Como bem disse Guimarães Rosa: “muita coisa importante falta nome”.