sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Amores silenciosos
Sempre fui do tipo que não faz alarde com quase nada. Raramente fui tomada de deslumbramento por coisa alguma. Não me lembro de ter tido muitos surtos de riso ou de choro. Tão pouco frequentes são meus ataques de riso que poderia até narrar da última vez que uma risada solta e sonora se estampou na minha cara. Mas não vale a leitura de vocês, fatos comuns, situações ordinárias, nada que fosse motivo para tanta graça. Talvez eu estivesse num bom dia e a reprodução de uma história banal tornou-se hilária. Da mesma forma é o meu derramamento de lágrimas. Já encharquei muito meus olhos cortando cebolas. Já, por tristeza, não. Meu choro, nas pouquíssimas vezes que aflora, é contido, baixinho, acanhado. Minha tristeza é bem silenciosa. Também nunca soltei um grito de alegria ou fiquei tão eufórica a ponto de pular ou cantar. Nos momentos em que mais me senti alegre, as manifestações do meu contentamento foram caladas. Lembro-me de dois momentos especialmente felizes em que experimentei a certeza de que aquilo que sentia era a expressão máxima da minha felicidade. Dois momentos extremamente silenciosos. Guardo tudo na memória, não quero que esses sentimentos jamais se percam de mim. Com meus amores não é diferente. Não tenho os arroubos de encantamento e arrebatamento avassalador que as paixões produzem. Não enlouqueço de paixão. Meus amores, assim como minhas alegrias e tristezas, nascem e morrem no mais pacato silêncio.
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Meu Quincas amado
Se tu fosses da espécie humana eu poderia ter te escrito milhares de cartas dizendo tudo que eu sentia por ti. Cada dia que passaste comigo significou muito para mim. Nos dias em que estava mais otimista com a vida, ver teu rabinho balançando de manhã quando abria a porta da cozinha, fazia minha alma festejar também. Dizia para você: Cadê meu nego gordo safado? Cadê meu Quicão sem vergonha? Tu não tem vergonha nessa tua cara preta? Cantava para ti: Qui qui qui qui é esse que vem da Sapucaí... ou o Quica não lava o pé... Lá vem o negão cheio de paixão. E tu correspondias com o sacolejar de todo o teu corpinho aos meus infantilismos matinais. Olhavas para mim com teus olhos de bola de gude pretas e gigantes, onde aparecia uma meia lua branca na parte inferior da pálpebra, para comunicar que tu estavas ali e que tu estavas feliz simplesmente por eu estar ali contigo; e que aquele dia seria mais um dia em meio a tantos outros dias que seriam exatamente iguais aquele, e seria maravilhoso precisamente por isso, porque se repetiria ritualisticamente as mesmas emoções que há nos encontros entre um cão e seu dono. Não importando se o dono foi só até atrás da porta colocar o lixo para fora e voltou. Eu estava ali e tu também. Na verdade, só isso interessa a um cão. A casa do cão é onde o dono está. O apetite do cão se dá quando o dono chega em casa. Beber água, fazer xixi é muito mais divertido quando o dono está por perto. E assim era nossa rotina, em meio a latidos e rabinhos frenéticos, todos os dias eu fazia meu café da manhã e tomava com vocês, colocava duas fatias de pão na torradeira, uma para mim e outra para vocês. Tu eras bem esganado, roubavas o pedaço do Calu. Muitas vezes vocês até brigavam por uma migalha de pão. Tu eras bem maior que o Calu, por isso eu sempre o defendia de ti, cheguei até a te dar umas palmadas quando brigavas feio com ele. Puxava-te pelas pernas de trás quando tu saltavas em cima dele e não querias sair. No final, até a Lia se metia na peleja, mas sempre obediente, no primeiro “para Lia”, ela já se retirava. Tu nunca te voltaste contra mim, nunca me mordeste. Sempre foste um cão generoso comigo. Já o Calu... Bom, voltemos a falar de amor, todos os dias depois do meu primeiro café acompanhada de vocês três, preparava uma segunda xícara de café que levava para sala junto com meu jornal na ilusão de lê-lo. Este era o meu ritual. Só que vocês também queriam participar do meu ritualzinho. Sentava no sofá, com um de vocês de cada lado e mais a Lia, tentando equilibrar o jornal e a xícara. Difícil ler jornal e tomar café contigo, Quincas. Tu puxavas a minha mão com a tua pata para que eu te fizesse carinho. E nisso, Quincas, tu eras o cachorro mais insistente que já tive, nunca nenhum outro cachorro exigiu tanto carinho de mim quanto tu. Tinha que te dar bronca para fazer com que tu parasses com aquela bendita pata pidona roubando minha mão do jornal. Quando eu me negava a obedecer teus mandos, quando tu não me convencias a estender minha mão até a tua cabeça, tu estendias tua cabeça para baixo da minha mão e me persuadias a te obedecer. E pensar que quando te trouxe para casa, com quarenta dias, o teu apelido era pirainha de tanto que tu gostavas de brincar de morder com teus dentinhos de leite que chamávamos de agulhinhas. Mas de tanto te fazer carinho para parar com essa mania, tua marca passou a ser a exigência constante e imediata de afagos. Diferentemente do Calu, cuja marca é o pedido do Biscrok e, quando mais novo, o brincar compulsivo de jogar bolinha e da Lia, cuja maior marca é se enfiar embaixo da minha cama e se esconder, deixando um rabo de 30 centímetros de fora, além de encarar a chuva como o maior inimigo na face da terra; tu eras um pedinte de cafuné insaciável. Tudo isso aconteceu diariamente, muitas vezes ao dia, durante semanas, meses, anos. Quatorze anos. Mas o que tu, Quincas, mais gostavas mesmo era de colo, tu eras um cão de colo. Se eu te colocasse no meu colo, tu ficavas imóvel e dormias escarrapachado nos meus braços pelo tempo que tu pudesses. Enquanto eu não me cansasse e te colocasse de volta ao chão, tu ficavas comigo. No meu colo tu te amolecias inteiro, teu corpinho se amalgamava de tal forma no meu colo que parecia que havias nascido ali. Sentei milhares de vezes na cadeira da cozinha e te coloquei no meu colo. Se gostavas disso? Acredito que era o teu céu. Pois, para mim era a minha terra. Era quando sentia meus pés bem conectados a terra. Tu eras o meu urso fofo e estavas totalmente entregue a mim. Coisa mais linda do mundo a foto que tenho contigo no meu colo.
Do que gostavas muito também era de água, não podias ver uma piscina, um riacho, uma poça d’água suja, um mar bravio, lá tu te jogavas, não importava o perigo. Na piscina da casa de Vinhedo tu nadavas feito um peixe, jogavas bolinha contigo mesmo, arremessavas a bolinha dentro da água para tu mesmo te atirar, mergulhar, nadar e pegá-la. Fazias isso compulsivamente, só paravas quando perdias o fôlego. Uma vez, ao visitar o terreno que uns amigos compraram em Jundiaí, tu te atiraste num córrego fundo e sujo e depois não conseguias sair. Havia capivaras correndo atrás de ti. Tu começaste a tentar sair da água, mas resvalavas no barro da borda. Até que depois de algumas tentativas, bravamente conseguiste sair e sobreviver à fúria das capivaras. Tive que te dar um banho com uma mangueira surrupiada da casa de um morador local, pois estavas todo enlameado e ainda tínhamos que voltar para casa no carro dos meus amigos. Não preciso dizer que detonamos o banco traseiro do carro com a umidade de um cão mal lavado.
Outra cena engraçada e inesquecível foi quando te dei uma comida gostosa e lambuzada e tu lambeste o pratinho com tanta vontade que o arrastou por todos os cantos da cozinha, inconformado por ter se esvaziado tão rápido. Quando não havia mais nem cheiro da comida no pratinho, tu te puseste a lamber ao redor do teu focinho para capturar os vestígios de sabor que tinham ido parar nos teus pelos. Tua língua era tão comprida e ágil que conseguias alcançar quase até embaixo das tuas pálpebras. Tua cara lambida era ainda mais linda. Fiquei rindo à toa ao assistir às manobras do teu linguão.
Mas como não há plenitude em nada e sim impermanência em tudo, eu também tinha dias ruins. E quando eu não estava nos meus melhores dias, pensava que precisava ficar bem, pois tinha que te levar para passear, tinha que limpar os jornais que não havia conseguido ler no dia anterior e que eram todos teus à noite. Tinha que preparar a comidinha de vocês. Não tinha como ficar sozinha irrigando a minha depressão. Era preciso me mexer. Tu, a Lia e o Calu já estavam despertos e queriam o mesmo do dia anterior. Queriam festa, musiquinha de cada um, afagos, beijos. Num frenesi radiante rebolavam para mim seus corpinhos, pulavam, muitas vezes até me machucarem com seus arranhões, era tanta alegria e disposição que, ao fim e ao cabo, eu acabava me deixando contagiar por vocês.
E tu, meu Quincas lindo, se tivesses ainda como me encontrar, eu me perderia em ti, balançaria todo o meu corpo numa dança desengonçada para te alegrar, me jogaria por inteiro em cima de ti, exploraria com as minhas mãos os teus pelos macios e enfiaria minha cabeça embaixo da tua, te olharia com meus olhos miúdos de quase gente até gravar para sempre detalhes da tua carinha na minha memória, me aconchegaria no teu colo, te cheiraria das patas às orelhas; convocaria uma orquestra para tocar na minha alma tuas musiquinhas, faria isso tudo só para poder sentir o que tua sentias quando dividiste tua vidinha comigo.
Não sei muito de amor, não sou muito boa no assunto, mas acho que isso é o mais próximo que consegui chegar do que comumente se chama amor.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Carta à Claudia
Quase todos os dias, com a velocidade das informações que chegam por todas as frentes, ficamos sabendo de coisas horripilantes que acontecem mundo afora. Não bastasse a escrita, ainda temos a brutalidade das imagens. Algumas colam de tal forma na retina que nem o cansaço e o sono são capaz de apagá-las. Estamos em março, e já neste ano aconteceram alguns fatos que me deixaram perplexa, indignada e deprimida, por fim. Mas não sei muito bem por que o caso da Claudia Silva Ferreira acendeu em mim, além desses sentimentos, dois outros: culpa e vergonha.
Assim,
queria me desculpar contigo, Claudia, que sou Ferreira como tu, por ter nascido numa cidade do sul, numa vila com nome de rio e não de planta. Por ainda festejar meu aniversário, apesar de ser dez anos mais velha que tu. Por ter frequentado universidade, roda de intelectuais, deitado em divãs; mas não ter aprendido a te proteger.
Tu, que tinhas só 38 anos, trabalhavas como faxineira em um hospital, moravas numa comunidade com nome de planta em Madureira, tinhas quatro filhos, ajudavas tua irmã a tomar conta de mais quatro crianças e ias fazer 20 anos de casada. É, tu casaste com 18 anos, mocinha ainda já tinhas casa, marido e filhos para cuidar. Mas te distraiste anteontem quando foste comprar pão. Balas displicentemente perdidas trocadas entre policiais e civis atingiram teu corpo. Depois, além dos ferimentos causados pelas balas, caíste do porta-malas do camburão que te socorria e foste arrastada por 250 metros em uma avenida movimentada. Morreste antes de chegar ao hospital, sarcasticamente lugar onde ganhavas teu pão. Pois então, Claudia, com a tua morte prematura, fizeste muito mais pelo teu país do que eu. Com a tua morte, Claudia, denunciaste mais um ato criminoso no lugar onde vivias e onde ainda teus filhos continuarão a viver. Não deixaste nenhum rastro de dúvida sobre o que fizeram contigo. Mostraste para todo um país como são tratadas as pessoas que como tu, nasceram, cresceram e deram à luz no morro. Abriste mais uma gaveta mal cheirosa que expõe a podridão repugnante do nosso sistema.
Meu pesar não muda a tua história, sei disso, mas alivia momentaneamente a minha vergonha perante ti.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Resta a alegria
Arnaldo Jabor, por intermédio do avô vivido por Marco Nanini em seu mais recente filme, afirma categórico, num misto de resignação e encantamento, que a felicidade não existe. O bem possível, passível de merecer algum crédito, é a alegria.
Alguns se perguntariam: mas qual a diferença entre felicidade e alegria?
O que discrimina felicidade e alegria? Quais os signos que estariam presentes numa e noutra?
Arriscando um palpite, acredito que a felicidade seja um bem supremo. É alcançada quando todos os nossos órgãos estejam em silêncio, isto é, sem qualquer espécie de dor ou desconforto, que a nossa mente esteja num estado perene de contentamento, nosso coração inchado de amor e bondade e o nosso espírito envolto em uma nuvem clara de paz e harmonia. O que falta? Ah, faltou falar do prazer. Os prazeres da mesa, do sexo, das emoções intensas.
Já a alegria é bem menor, não tem como premissas nem a perenidade, nem a constância, nem a plenitude. É impermanente, incompleta, instável, perecível, fugidia. Pode durar só alguns minutos, com sorte algumas horas, quase um milagre se durar alguns dias. É preciso estar atento as suas aparições. Muitas vezes, ela dá as caras sem nenhum aviso prévio. Quando você se dá conta, está alegre. Acorda de manhã e o café de todo dia vira o melhor café que você já tomou. O jornal de todo dia, jogado no chão do lado de fora da porta, se transforma em um presente. Abrir as janelas torna-se uma dádiva. Respirar, enxergar, ouvir, falar tem outra dimensão. É como se estes atos mecânicos, pela primeira vez, fossem reconhecidos como bem maior.
A grande questão é que fomos preparados para aguardar pela felicidade. Nos votos de qualquer comemoração está sempre impressa a palavra “felicidade”. É Feliz Natal, Feliz Aniversário, Feliz Dia disso ou daquilo. A felicidade está associada à conquista de todos os bens num mesmo período de tempo, algo da ordem do impossível. Há um elemento no projeto que vai estar ausente, e quando este se apresentar, outro faltará. Assim, a felicidade estará inevitavelmente deslocada para o porvir. “É só amanhã...” como diz Pessoa.
A alegria é bem mais tangível. Sua trama é feita de material menos nobre. Suas razões, quando existem, não têm relação com seu produto. Muitas vezes, nem há produtos. A alegria é improdutiva, não pretende nada, não se prende ao futuro, nem se sabe se tem serventia. Ela se dá nos intervalos, é peregrina, plástica. Quando se manifesta faz com que a cara toda ria, os olhos encham-se de água boa, os pulmões quase se afoguem, o coração se alargue. O corpo todo se alegra, as células batem palmas, sente-se um bobo, pueril, deliciosamente desatarraxado dos propósitos.
Esqueça a meta inatingível e extenuante da gulosa felicidade, que quer tudo, que quer mais. Deixe-se apreender pelos modestos e imprevisíveis momentos de alegria: bem de menor grandeza, mas de possibilidade tocável.
“Eu vou te dar alegria... eu vou raiar um novo dia... e cantar e cantar e cantar...” Arnaldo Antunes em Alegria
Alguns se perguntariam: mas qual a diferença entre felicidade e alegria?
O que discrimina felicidade e alegria? Quais os signos que estariam presentes numa e noutra?
Arriscando um palpite, acredito que a felicidade seja um bem supremo. É alcançada quando todos os nossos órgãos estejam em silêncio, isto é, sem qualquer espécie de dor ou desconforto, que a nossa mente esteja num estado perene de contentamento, nosso coração inchado de amor e bondade e o nosso espírito envolto em uma nuvem clara de paz e harmonia. O que falta? Ah, faltou falar do prazer. Os prazeres da mesa, do sexo, das emoções intensas.
Já a alegria é bem menor, não tem como premissas nem a perenidade, nem a constância, nem a plenitude. É impermanente, incompleta, instável, perecível, fugidia. Pode durar só alguns minutos, com sorte algumas horas, quase um milagre se durar alguns dias. É preciso estar atento as suas aparições. Muitas vezes, ela dá as caras sem nenhum aviso prévio. Quando você se dá conta, está alegre. Acorda de manhã e o café de todo dia vira o melhor café que você já tomou. O jornal de todo dia, jogado no chão do lado de fora da porta, se transforma em um presente. Abrir as janelas torna-se uma dádiva. Respirar, enxergar, ouvir, falar tem outra dimensão. É como se estes atos mecânicos, pela primeira vez, fossem reconhecidos como bem maior.
A grande questão é que fomos preparados para aguardar pela felicidade. Nos votos de qualquer comemoração está sempre impressa a palavra “felicidade”. É Feliz Natal, Feliz Aniversário, Feliz Dia disso ou daquilo. A felicidade está associada à conquista de todos os bens num mesmo período de tempo, algo da ordem do impossível. Há um elemento no projeto que vai estar ausente, e quando este se apresentar, outro faltará. Assim, a felicidade estará inevitavelmente deslocada para o porvir. “É só amanhã...” como diz Pessoa.
A alegria é bem mais tangível. Sua trama é feita de material menos nobre. Suas razões, quando existem, não têm relação com seu produto. Muitas vezes, nem há produtos. A alegria é improdutiva, não pretende nada, não se prende ao futuro, nem se sabe se tem serventia. Ela se dá nos intervalos, é peregrina, plástica. Quando se manifesta faz com que a cara toda ria, os olhos encham-se de água boa, os pulmões quase se afoguem, o coração se alargue. O corpo todo se alegra, as células batem palmas, sente-se um bobo, pueril, deliciosamente desatarraxado dos propósitos.
Esqueça a meta inatingível e extenuante da gulosa felicidade, que quer tudo, que quer mais. Deixe-se apreender pelos modestos e imprevisíveis momentos de alegria: bem de menor grandeza, mas de possibilidade tocável.
“Eu vou te dar alegria... eu vou raiar um novo dia... e cantar e cantar e cantar...” Arnaldo Antunes em Alegria
sábado, 2 de abril de 2011
Rédea na rede
Há uns meses acabei aderindo à sugestão de alguns amigos, que me cobravam o ingresso no Face Book. Aderi. Faço parte. Tenho amigos virtuais. Para um neófito, confesso que fiquei entusiasmada ao ver as caras que iam surgindo a cada clique no mouse. Quem tem seu perfil no Face Book sabe disso. Você fica voraz para ver e ser visto. Você quer que aqueles que acessem a sua página, saibam quem você é. Na rede, dá para defender causas importantes de minorias esmagadas, participar de discussões metafísicas, tomar partido, rever os “exes” de sua vida – desde ex-namorados até ex-professores -, bisbilhotar fotografias alheais, saber quem foi com quem e onde, assistir às postagens do “youtube” sem precisar ir até lá, colar frases de efeito de grandes autores, enfim, um universo de possibilidades se abre sob seus olhos. A coisa pode te deixar numa compulsão sem fronteira. É bem capaz que você abra aquela página uma dezena de vezes ao dia, ou melhor, a cada vez que tiver um computador dando sopa. E a cada entrada a página vai te hipnotizar, tal qual um relógio de bolso a balançar. Fiquei neste estado. Até conversar no "chat" com três pessoas ao mesmo tempo eu consegui. Passado algum tempo, a coisa foi esfriando. Uma outra percepção se afigurou, bem distante da inicial. A tal da página se traduziu para mim em um exercício narcísico descomunal: você quer exibir o quanto você é legal, “cool”, despreconceituoso, interessado em eventos de gente bacana, inteligente, quantos idiomas você fala, quem são seus “amigos”, de qual tribo você faz parte, para onde você viaja, que pensamentos você compartilha, quais idéias você persegue. O mundo precisa saber quais são os signos que você acredita que melhor te representam. Não basta alguns saberem, é preciso partilhar com o maior número de pessoas. Sei dizer que com a mesma rapidez que veio o fascínio, veio o tédio. O brinquedo perdeu a graça. Importante ressaltar que não critico nem o FB nem seus usuários. Ao contrário, gostaria de ter conseguido manter o entusiasmo. Ainda abro de vez em quando a página quando estou na maior solidão e dou uma espiadela nas fotos de alguns amigos. Coisa rápida e fácil. Mas não tenho mais interesse em conhecer os interesses de meus amigos. Fora, que são tantas as novidades que pipocam na tela que, mesmo que estivesse ainda apaixonada pelo negócio, não teria como estar em dia com ele. Reencontrei sim amigos, conheci sim amigos de amigos, descobri psicanalistas sérios que dividem suas pérolas com os colegas, fiquei sabendo de eventos, inscrevi-me num laboratório de psicanálise; oportunidades e mais oportunidades. No entanto, mesmo me rendendo às benesses do FB, resta a interrogação: com o fluente atualizar e consumir a enxurrada de fatos e fotos, opiniões, conhecimentos picados, amizades voláteis, teorias em mosaico, afetos escorregadios, crenças mancas, não corremos o risco de trocar “um” bem amado, bem sabido, bem pensado de qualquer categoria e cair nas garras da sedução da quantidade?
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Ao amigo Carlos ou Zé geriatra... Da longevidade
Quando perguntaram ao Mario Quintana, já com seus 87 anos, qual era o segredo de sua longevidade, o poeta, sem maiores ares de mistério, respondeu: "- Nem eu mesmo sei como cheguei até aqui... não foi por falta de descuido."
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Medo do medo
O medo é o estado que nos põe em posição de alerta frente aos perigos, permitindo-nos continuar vivos. Sabemos há longa data disso. Sem que temêssemos as doenças, descuidaríamos de certos cuidados com a saúde e estaríamos arriscando perder a vida. Atravessar uma rua movimentada sem o medo de ser atropelado, coloca igualmente nossa vida em risco. Tudo compreensível até então.
Mas o que dizer do medo de sentir medo? Ouço esse refrão constantemente nas falas de meus pacientes. Muitas vezes, está tudo na mais santa paz e o sujeito tem medo de perder a paz que conquistou. Outras vezes, assombra-se de medo de não encontrar um amor, aí quando encontra, apavora-se ao pensar que uma rajada de vento possa levar embora o amor que demorou tanto para chegar.
Em alguns casos, os medos são tão descabidos, que o próprio sujeito reconhece a impertinência daquele medo, mas ainda assim, não consegue silenciá-lo.
O ruminar dos medos faz adoecer e deixar de viver. Grande paradoxo, o mesmo medo que preserva a vida é o que impede que se viva.
Conheci um homem, que amargava um verdadeiro pavor de perder seu patrimônio financeiro. Quanto mais temia, mais dinheiro fazia e, segundo o próprio, mais acumulava para temer perder.
Outra morria de medo de ser traída. Vasculhava roupas, agendas, telefones, na ilusão de encontrar algo que incriminasse o marido. Nunca conseguiu confirmar suas suspeitas, mas não deixava de temer o abandono.
Uma adolescente ficava aterrorizada ao ver um cachorro. Já não saía mais de casa, a não ser de carro, com medo de dar de cara com um desses quadrúpedes de focinho molhado passeando pelas calçadas. Algum episódio envolvendo cachorros na sua história? Absolutamente não. O que poderia ser? Inúmeras hipóteses, mas nenhuma que legitimasse, na fantasia, sua intimidação por um cão.
Porém, o medo que mais intriga é o medo do medo. Quem sofre de crises de ansiedade, sabe bem o que é isso. O medo arrebata, toma conta, rouba a razão, desconcentra e descontrola, aniquila. Depois de apagado o incêndio, feito o rescaldo, o que resta? O medo. O medo ressurge das cinzas. Não é mais o mesmo medo do momento da crise. É um medo de outra ordem. Medo de que a situação de medo retorne. Um beco sem saída. Já ouvi um relato, onde o sujeito dizia preferir estar dentro da crise, por conhecer sua extensão e seus efeitos, do que fora dela, por não saber com que intensidade o medo o possuiria.
Dizem os românticos que o único antídoto contra o medo é o apaixonamento. Na paixão, as pessoas sentem-se potentes e inatingíveis, imunes a qualquer intempérie. Os amantes e amados costumam viver daquele sentimento desassossegadamente delicioso. A paixão é onipotente, auto-suficiente, petulante. O medo até compete com a paixão, mas perde. Vide as loucuras que embarcam aqueles que se deixam cair nas teias da paixão - "fall in love". Só tem um detalhe, esse destemor só dura o exato tempo em que a paixão transita entre os amantes.
Depois disso, o medo retorna e volta a incomodar, mas sem nome nem endereço, como uma carta sem remetente.
O fastio do medo empobrece o universo. Não há olhares de encantamento para noites enluaradas ou para réstias de sol pela porta entreaberta. O medo desgasta, corrói, desanima, reduz a proporção do bom e alarga a do ruim.
Ao longo da vida vamos sedimentando alguns medos antigos, adquirindo novos, deslocando para outros medos aqueles que não fazem mais sentido, armazenando nossa coleção em inúmeros compartimentos, até que um dia chega o dia do dia final, derradeiro, em que vamos perceber que uma montanha de medos não foi capaz de nos resguardar do “pior”. Quantos tolos medos, quanto sofrimentos à toa, quanto desperdício daquela substância boa que corre entre os neurônios.
Dá muita pena muito saber e pouco poder fazer quando se trata do medo. Ele tem autonomia, autoridade e passaporte, acompanha-nos aonde quer que estejamos, no Timor Leste ou ali na esquina, ele não respeita fronteiras, raça, sexo ou idade. Uma qualidade do medo devemos reconhecer. Dos sentimentos é o mais democrático e soberano, disso jamais podemos nos queixar ou lamentar.
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