segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Realidade
Hoje meu mundo amanheceu mais pobre. Minha casa ganhou metros quadrados e silêncio, meu tempo devolve-me horas ao acaso, meu pensamento pode incorporar novos sonhos e projetos, meus pés estão prontos para pisar em outros territórios, e, ainda assim, meu mundo está infinitamente mais pobre. Hoje o dia clareou mais cedo e trouxe com ele um espantoso excesso de realidade. O foco e a nitidez das imagens são de uma exatidão desconcertante. A lente é ultrassensível e precisa, não há tremor nas mãos que a faça perder o foco, embaralhar ou embaçar as imagens. As cores, as formas e os tamanhos são extravagantemente reais. Não há vultos, sombras ou sujeiras. Nada se mistura. Nada está irreconhecível. Nada engana. Passado e presente não se confundem, meu olho consegue discriminar tudo. A crueza da luz e o abuso das cores poderiam até cegar. Pena, mas não, meu olho nu se aguça ainda mais. Fulvio, amigo ultrassensível como a lente de que falo, tenta me advertir: Marcia, a realidade não dialoga, a realidade é um monólogo. Secura na boca, traqueia estreita. E, com isso, ponho minha viola no saco, engulo a sentença e fecho os olhos para dormir, pois meu sono hoje tem o silêncio da casa grande e o relógio alargador de horas.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Quando a gente não se despede
Flutuamos involuntários dentro de um labirinto escuro e sufocante toda vez que a gente não se despede. Queremos achar a saída, pisar em terra firme. Sabemos que temos que dobrar à direita, mas uma força qualquer te empurra para a esquerda. Gritamos que a saída não é para lá, mas essa espessa força movediça te leva para aqueles lados. Quando não há despedida o amor fica à deriva, perde o prumo, não vai para o sul nem para o norte, vai roubando teu sono como um desalmado zumbi para depois devolvê-lo durante o dia diante de um vil senhor do engenho. O amor desalinhado não encontra mais o destinatário e retorna em desatino ao coração do remetente, que tonto de dor não sabe o que fazer com ele. A boca da gente não para de se repetir, alienada coitada, tem esperanças de que falar pelos cotovelos irá transformar a dilacerante ausência em um pinguinho de presença. Choramos para que a aguaceira lave as imagens últimas, derradeiras, e que regue as lembranças felizes. Vivemos para que a mente irrigue-se de pensamentos outros e para que as memórias doentes curem-se e aconcheguem-se, delicadas e coloridas como uma bolha de sabão, mornas e macias como o corpo do meu cão.
sábado, 27 de setembro de 2014
Pensamentos clandestinos
Ando mesmo em linha reta. Minha rotina de afazeres é bem prosaica. De manhã, café, jornal, bichos, trabalho. De casa, direto e reto para o consultório. Detesto interrupções no caminho. Minhas rotas são cronometradas de tal forma que nunca – sei que esta palavra é maldita na psicanálise – me atraso. E isso vale para tudo, encontro com amigos, cinema, aeroporto. Ao contrário, estou, na maioria das vezes, alguns minutos adiantada. De casa para o cinema ou do cinema para casa. E sempre que uma programação acaba– outro vocábulo a ser evitado – quero voltar imediatamente para casa. Sim, estou eternamente numa corrida olímpica. Sem pódio de chegada ou beijo de namorada, como dizia o poeta.
A galope andam também meus pensamentos, só que diferentemente dos meus trajetos em linha reta, eles transitam na diagonal, em zigue-zague, na contramão e, não contentes, fazem ultrapassagens ordinárias. Ora adiantados ora bem atrasados. Da conta no banco ao remédio que não lembro se tomei. De um dia de outono em Porto Alegre em que eu e minha irmã levamos meu pai para ver o pôr do sol do Guaíba à ração do cachorro que preciso comprar. Da sensação que experimentei quando dormi pela primeira e única vez em um saco de dormir à poesia do Quintana. Das chuvas alegres e pontuais em Belém do Pará à consulta que preciso agendar com o dentista.
Os dias de inverno nas manhãs ensolaradas em Vinhedo são invadidos pelo dia do último aniversário da minha mãe, mesmo dia em que me despedia dela com um tchau e ela se despedia de mim para sempre. Woody Allen me visita, duelos entre ciência e magia se impõem na bagunça que está a minha agenda. Organizo-a em algum canto da minha cabeça e percebo que esqueci a própria em casa, ou será no consultório? Olha a lua, está muito cheia!
Viagens noturnas também se imiscuem nos meus pensamentos mais bobos. O sonho da noite anterior se joga do abismo quando espero para atravessar a rua. Acho que o carro dirigido pela mulher com cara de braba o despertou. Aliás, penso se dormi ou não na noite passada e se sim, por quanto tempo.
Pão e poesia. Ah esses dois clandestinos, como uma aranha armadeira, entram sorrateiramente e, de repente, saltam. Susto. Pensamentos rodopiam em desatino. Cansaço.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Amores silenciosos
Sempre fui do tipo que não faz alarde com quase nada. Raramente fui tomada de deslumbramento por coisa alguma. Não me lembro de ter tido muitos surtos de riso ou de choro. Tão pouco frequentes são meus ataques de riso que poderia até narrar da última vez que uma risada solta e sonora se estampou na minha cara. Mas não vale a leitura de vocês, fatos comuns, situações ordinárias, nada que fosse motivo para tanta graça. Talvez eu estivesse num bom dia e a reprodução de uma história banal tornou-se hilária. Da mesma forma é o meu derramamento de lágrimas. Já encharquei muito meus olhos cortando cebolas. Já, por tristeza, não. Meu choro, nas pouquíssimas vezes que aflora, é contido, baixinho, acanhado. Minha tristeza é bem silenciosa. Também nunca soltei um grito de alegria ou fiquei tão eufórica a ponto de pular ou cantar. Nos momentos em que mais me senti alegre, as manifestações do meu contentamento foram caladas. Lembro-me de dois momentos especialmente felizes em que experimentei a certeza de que aquilo que sentia era a expressão máxima da minha felicidade. Dois momentos extremamente silenciosos. Guardo tudo na memória, não quero que esses sentimentos jamais se percam de mim. Com meus amores não é diferente. Não tenho os arroubos de encantamento e arrebatamento avassalador que as paixões produzem. Não enlouqueço de paixão. Meus amores, assim como minhas alegrias e tristezas, nascem e morrem no mais pacato silêncio.
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Meu Quincas amado
Se tu fosses da espécie humana eu poderia ter te escrito milhares de cartas dizendo tudo que eu sentia por ti. Cada dia que passaste comigo significou muito para mim. Nos dias em que estava mais otimista com a vida, ver teu rabinho balançando de manhã quando abria a porta da cozinha, fazia minha alma festejar também. Dizia para você: Cadê meu nego gordo safado? Cadê meu Quicão sem vergonha? Tu não tem vergonha nessa tua cara preta? Cantava para ti: Qui qui qui qui é esse que vem da Sapucaí... ou o Quica não lava o pé... Lá vem o negão cheio de paixão. E tu correspondias com o sacolejar de todo o teu corpinho aos meus infantilismos matinais. Olhavas para mim com teus olhos de bola de gude pretas e gigantes, onde aparecia uma meia lua branca na parte inferior da pálpebra, para comunicar que tu estavas ali e que tu estavas feliz simplesmente por eu estar ali contigo; e que aquele dia seria mais um dia em meio a tantos outros dias que seriam exatamente iguais aquele, e seria maravilhoso precisamente por isso, porque se repetiria ritualisticamente as mesmas emoções que há nos encontros entre um cão e seu dono. Não importando se o dono foi só até atrás da porta colocar o lixo para fora e voltou. Eu estava ali e tu também. Na verdade, só isso interessa a um cão. A casa do cão é onde o dono está. O apetite do cão se dá quando o dono chega em casa. Beber água, fazer xixi é muito mais divertido quando o dono está por perto. E assim era nossa rotina, em meio a latidos e rabinhos frenéticos, todos os dias eu fazia meu café da manhã e tomava com vocês, colocava duas fatias de pão na torradeira, uma para mim e outra para vocês. Tu eras bem esganado, roubavas o pedaço do Calu. Muitas vezes vocês até brigavam por uma migalha de pão. Tu eras bem maior que o Calu, por isso eu sempre o defendia de ti, cheguei até a te dar umas palmadas quando brigavas feio com ele. Puxava-te pelas pernas de trás quando tu saltavas em cima dele e não querias sair. No final, até a Lia se metia na peleja, mas sempre obediente, no primeiro “para Lia”, ela já se retirava. Tu nunca te voltaste contra mim, nunca me mordeste. Sempre foste um cão generoso comigo. Já o Calu... Bom, voltemos a falar de amor, todos os dias depois do meu primeiro café acompanhada de vocês três, preparava uma segunda xícara de café que levava para sala junto com meu jornal na ilusão de lê-lo. Este era o meu ritual. Só que vocês também queriam participar do meu ritualzinho. Sentava no sofá, com um de vocês de cada lado e mais a Lia, tentando equilibrar o jornal e a xícara. Difícil ler jornal e tomar café contigo, Quincas. Tu puxavas a minha mão com a tua pata para que eu te fizesse carinho. E nisso, Quincas, tu eras o cachorro mais insistente que já tive, nunca nenhum outro cachorro exigiu tanto carinho de mim quanto tu. Tinha que te dar bronca para fazer com que tu parasses com aquela bendita pata pidona roubando minha mão do jornal. Quando eu me negava a obedecer teus mandos, quando tu não me convencias a estender minha mão até a tua cabeça, tu estendias tua cabeça para baixo da minha mão e me persuadias a te obedecer. E pensar que quando te trouxe para casa, com quarenta dias, o teu apelido era pirainha de tanto que tu gostavas de brincar de morder com teus dentinhos de leite que chamávamos de agulhinhas. Mas de tanto te fazer carinho para parar com essa mania, tua marca passou a ser a exigência constante e imediata de afagos. Diferentemente do Calu, cuja marca é o pedido do Biscrok e, quando mais novo, o brincar compulsivo de jogar bolinha e da Lia, cuja maior marca é se enfiar embaixo da minha cama e se esconder, deixando um rabo de 30 centímetros de fora, além de encarar a chuva como o maior inimigo na face da terra; tu eras um pedinte de cafuné insaciável. Tudo isso aconteceu diariamente, muitas vezes ao dia, durante semanas, meses, anos. Quatorze anos. Mas o que tu, Quincas, mais gostavas mesmo era de colo, tu eras um cão de colo. Se eu te colocasse no meu colo, tu ficavas imóvel e dormias escarrapachado nos meus braços pelo tempo que tu pudesses. Enquanto eu não me cansasse e te colocasse de volta ao chão, tu ficavas comigo. No meu colo tu te amolecias inteiro, teu corpinho se amalgamava de tal forma no meu colo que parecia que havias nascido ali. Sentei milhares de vezes na cadeira da cozinha e te coloquei no meu colo. Se gostavas disso? Acredito que era o teu céu. Pois, para mim era a minha terra. Era quando sentia meus pés bem conectados a terra. Tu eras o meu urso fofo e estavas totalmente entregue a mim. Coisa mais linda do mundo a foto que tenho contigo no meu colo.
Do que gostavas muito também era de água, não podias ver uma piscina, um riacho, uma poça d’água suja, um mar bravio, lá tu te jogavas, não importava o perigo. Na piscina da casa de Vinhedo tu nadavas feito um peixe, jogavas bolinha contigo mesmo, arremessavas a bolinha dentro da água para tu mesmo te atirar, mergulhar, nadar e pegá-la. Fazias isso compulsivamente, só paravas quando perdias o fôlego. Uma vez, ao visitar o terreno que uns amigos compraram em Jundiaí, tu te atiraste num córrego fundo e sujo e depois não conseguias sair. Havia capivaras correndo atrás de ti. Tu começaste a tentar sair da água, mas resvalavas no barro da borda. Até que depois de algumas tentativas, bravamente conseguiste sair e sobreviver à fúria das capivaras. Tive que te dar um banho com uma mangueira surrupiada da casa de um morador local, pois estavas todo enlameado e ainda tínhamos que voltar para casa no carro dos meus amigos. Não preciso dizer que detonamos o banco traseiro do carro com a umidade de um cão mal lavado.
Outra cena engraçada e inesquecível foi quando te dei uma comida gostosa e lambuzada e tu lambeste o pratinho com tanta vontade que o arrastou por todos os cantos da cozinha, inconformado por ter se esvaziado tão rápido. Quando não havia mais nem cheiro da comida no pratinho, tu te puseste a lamber ao redor do teu focinho para capturar os vestígios de sabor que tinham ido parar nos teus pelos. Tua língua era tão comprida e ágil que conseguias alcançar quase até embaixo das tuas pálpebras. Tua cara lambida era ainda mais linda. Fiquei rindo à toa ao assistir às manobras do teu linguão.
Mas como não há plenitude em nada e sim impermanência em tudo, eu também tinha dias ruins. E quando eu não estava nos meus melhores dias, pensava que precisava ficar bem, pois tinha que te levar para passear, tinha que limpar os jornais que não havia conseguido ler no dia anterior e que eram todos teus à noite. Tinha que preparar a comidinha de vocês. Não tinha como ficar sozinha irrigando a minha depressão. Era preciso me mexer. Tu, a Lia e o Calu já estavam despertos e queriam o mesmo do dia anterior. Queriam festa, musiquinha de cada um, afagos, beijos. Num frenesi radiante rebolavam para mim seus corpinhos, pulavam, muitas vezes até me machucarem com seus arranhões, era tanta alegria e disposição que, ao fim e ao cabo, eu acabava me deixando contagiar por vocês.
E tu, meu Quincas lindo, se tivesses ainda como me encontrar, eu me perderia em ti, balançaria todo o meu corpo numa dança desengonçada para te alegrar, me jogaria por inteiro em cima de ti, exploraria com as minhas mãos os teus pelos macios e enfiaria minha cabeça embaixo da tua, te olharia com meus olhos miúdos de quase gente até gravar para sempre detalhes da tua carinha na minha memória, me aconchegaria no teu colo, te cheiraria das patas às orelhas; convocaria uma orquestra para tocar na minha alma tuas musiquinhas, faria isso tudo só para poder sentir o que tua sentias quando dividiste tua vidinha comigo.
Não sei muito de amor, não sou muito boa no assunto, mas acho que isso é o mais próximo que consegui chegar do que comumente se chama amor.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Carta à Claudia
Quase todos os dias, com a velocidade das informações que chegam por todas as frentes, ficamos sabendo de coisas horripilantes que acontecem mundo afora. Não bastasse a escrita, ainda temos a brutalidade das imagens. Algumas colam de tal forma na retina que nem o cansaço e o sono são capaz de apagá-las. Estamos em março, e já neste ano aconteceram alguns fatos que me deixaram perplexa, indignada e deprimida, por fim. Mas não sei muito bem por que o caso da Claudia Silva Ferreira acendeu em mim, além desses sentimentos, dois outros: culpa e vergonha.
Assim,
queria me desculpar contigo, Claudia, que sou Ferreira como tu, por ter nascido numa cidade do sul, numa vila com nome de rio e não de planta. Por ainda festejar meu aniversário, apesar de ser dez anos mais velha que tu. Por ter frequentado universidade, roda de intelectuais, deitado em divãs; mas não ter aprendido a te proteger.
Tu, que tinhas só 38 anos, trabalhavas como faxineira em um hospital, moravas numa comunidade com nome de planta em Madureira, tinhas quatro filhos, ajudavas tua irmã a tomar conta de mais quatro crianças e ias fazer 20 anos de casada. É, tu casaste com 18 anos, mocinha ainda já tinhas casa, marido e filhos para cuidar. Mas te distraiste anteontem quando foste comprar pão. Balas displicentemente perdidas trocadas entre policiais e civis atingiram teu corpo. Depois, além dos ferimentos causados pelas balas, caíste do porta-malas do camburão que te socorria e foste arrastada por 250 metros em uma avenida movimentada. Morreste antes de chegar ao hospital, sarcasticamente lugar onde ganhavas teu pão. Pois então, Claudia, com a tua morte prematura, fizeste muito mais pelo teu país do que eu. Com a tua morte, Claudia, denunciaste mais um ato criminoso no lugar onde vivias e onde ainda teus filhos continuarão a viver. Não deixaste nenhum rastro de dúvida sobre o que fizeram contigo. Mostraste para todo um país como são tratadas as pessoas que como tu, nasceram, cresceram e deram à luz no morro. Abriste mais uma gaveta mal cheirosa que expõe a podridão repugnante do nosso sistema.
Meu pesar não muda a tua história, sei disso, mas alivia momentaneamente a minha vergonha perante ti.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Resta a alegria
Arnaldo Jabor, por intermédio do avô vivido por Marco Nanini em seu mais recente filme, afirma categórico, num misto de resignação e encantamento, que a felicidade não existe. O bem possível, passível de merecer algum crédito, é a alegria.
Alguns se perguntariam: mas qual a diferença entre felicidade e alegria?
O que discrimina felicidade e alegria? Quais os signos que estariam presentes numa e noutra?
Arriscando um palpite, acredito que a felicidade seja um bem supremo. É alcançada quando todos os nossos órgãos estejam em silêncio, isto é, sem qualquer espécie de dor ou desconforto, que a nossa mente esteja num estado perene de contentamento, nosso coração inchado de amor e bondade e o nosso espírito envolto em uma nuvem clara de paz e harmonia. O que falta? Ah, faltou falar do prazer. Os prazeres da mesa, do sexo, das emoções intensas.
Já a alegria é bem menor, não tem como premissas nem a perenidade, nem a constância, nem a plenitude. É impermanente, incompleta, instável, perecível, fugidia. Pode durar só alguns minutos, com sorte algumas horas, quase um milagre se durar alguns dias. É preciso estar atento as suas aparições. Muitas vezes, ela dá as caras sem nenhum aviso prévio. Quando você se dá conta, está alegre. Acorda de manhã e o café de todo dia vira o melhor café que você já tomou. O jornal de todo dia, jogado no chão do lado de fora da porta, se transforma em um presente. Abrir as janelas torna-se uma dádiva. Respirar, enxergar, ouvir, falar tem outra dimensão. É como se estes atos mecânicos, pela primeira vez, fossem reconhecidos como bem maior.
A grande questão é que fomos preparados para aguardar pela felicidade. Nos votos de qualquer comemoração está sempre impressa a palavra “felicidade”. É Feliz Natal, Feliz Aniversário, Feliz Dia disso ou daquilo. A felicidade está associada à conquista de todos os bens num mesmo período de tempo, algo da ordem do impossível. Há um elemento no projeto que vai estar ausente, e quando este se apresentar, outro faltará. Assim, a felicidade estará inevitavelmente deslocada para o porvir. “É só amanhã...” como diz Pessoa.
A alegria é bem mais tangível. Sua trama é feita de material menos nobre. Suas razões, quando existem, não têm relação com seu produto. Muitas vezes, nem há produtos. A alegria é improdutiva, não pretende nada, não se prende ao futuro, nem se sabe se tem serventia. Ela se dá nos intervalos, é peregrina, plástica. Quando se manifesta faz com que a cara toda ria, os olhos encham-se de água boa, os pulmões quase se afoguem, o coração se alargue. O corpo todo se alegra, as células batem palmas, sente-se um bobo, pueril, deliciosamente desatarraxado dos propósitos.
Esqueça a meta inatingível e extenuante da gulosa felicidade, que quer tudo, que quer mais. Deixe-se apreender pelos modestos e imprevisíveis momentos de alegria: bem de menor grandeza, mas de possibilidade tocável.
“Eu vou te dar alegria... eu vou raiar um novo dia... e cantar e cantar e cantar...” Arnaldo Antunes em Alegria
Alguns se perguntariam: mas qual a diferença entre felicidade e alegria?
O que discrimina felicidade e alegria? Quais os signos que estariam presentes numa e noutra?
Arriscando um palpite, acredito que a felicidade seja um bem supremo. É alcançada quando todos os nossos órgãos estejam em silêncio, isto é, sem qualquer espécie de dor ou desconforto, que a nossa mente esteja num estado perene de contentamento, nosso coração inchado de amor e bondade e o nosso espírito envolto em uma nuvem clara de paz e harmonia. O que falta? Ah, faltou falar do prazer. Os prazeres da mesa, do sexo, das emoções intensas.
Já a alegria é bem menor, não tem como premissas nem a perenidade, nem a constância, nem a plenitude. É impermanente, incompleta, instável, perecível, fugidia. Pode durar só alguns minutos, com sorte algumas horas, quase um milagre se durar alguns dias. É preciso estar atento as suas aparições. Muitas vezes, ela dá as caras sem nenhum aviso prévio. Quando você se dá conta, está alegre. Acorda de manhã e o café de todo dia vira o melhor café que você já tomou. O jornal de todo dia, jogado no chão do lado de fora da porta, se transforma em um presente. Abrir as janelas torna-se uma dádiva. Respirar, enxergar, ouvir, falar tem outra dimensão. É como se estes atos mecânicos, pela primeira vez, fossem reconhecidos como bem maior.
A grande questão é que fomos preparados para aguardar pela felicidade. Nos votos de qualquer comemoração está sempre impressa a palavra “felicidade”. É Feliz Natal, Feliz Aniversário, Feliz Dia disso ou daquilo. A felicidade está associada à conquista de todos os bens num mesmo período de tempo, algo da ordem do impossível. Há um elemento no projeto que vai estar ausente, e quando este se apresentar, outro faltará. Assim, a felicidade estará inevitavelmente deslocada para o porvir. “É só amanhã...” como diz Pessoa.
A alegria é bem mais tangível. Sua trama é feita de material menos nobre. Suas razões, quando existem, não têm relação com seu produto. Muitas vezes, nem há produtos. A alegria é improdutiva, não pretende nada, não se prende ao futuro, nem se sabe se tem serventia. Ela se dá nos intervalos, é peregrina, plástica. Quando se manifesta faz com que a cara toda ria, os olhos encham-se de água boa, os pulmões quase se afoguem, o coração se alargue. O corpo todo se alegra, as células batem palmas, sente-se um bobo, pueril, deliciosamente desatarraxado dos propósitos.
Esqueça a meta inatingível e extenuante da gulosa felicidade, que quer tudo, que quer mais. Deixe-se apreender pelos modestos e imprevisíveis momentos de alegria: bem de menor grandeza, mas de possibilidade tocável.
“Eu vou te dar alegria... eu vou raiar um novo dia... e cantar e cantar e cantar...” Arnaldo Antunes em Alegria
sábado, 2 de abril de 2011
Rédea na rede
Há uns meses acabei aderindo à sugestão de alguns amigos, que me cobravam o ingresso no Face Book. Aderi. Faço parte. Tenho amigos virtuais. Para um neófito, confesso que fiquei entusiasmada ao ver as caras que iam surgindo a cada clique no mouse. Quem tem seu perfil no Face Book sabe disso. Você fica voraz para ver e ser visto. Você quer que aqueles que acessem a sua página, saibam quem você é. Na rede, dá para defender causas importantes de minorias esmagadas, participar de discussões metafísicas, tomar partido, rever os “exes” de sua vida – desde ex-namorados até ex-professores -, bisbilhotar fotografias alheais, saber quem foi com quem e onde, assistir às postagens do “youtube” sem precisar ir até lá, colar frases de efeito de grandes autores, enfim, um universo de possibilidades se abre sob seus olhos. A coisa pode te deixar numa compulsão sem fronteira. É bem capaz que você abra aquela página uma dezena de vezes ao dia, ou melhor, a cada vez que tiver um computador dando sopa. E a cada entrada a página vai te hipnotizar, tal qual um relógio de bolso a balançar. Fiquei neste estado. Até conversar no "chat" com três pessoas ao mesmo tempo eu consegui. Passado algum tempo, a coisa foi esfriando. Uma outra percepção se afigurou, bem distante da inicial. A tal da página se traduziu para mim em um exercício narcísico descomunal: você quer exibir o quanto você é legal, “cool”, despreconceituoso, interessado em eventos de gente bacana, inteligente, quantos idiomas você fala, quem são seus “amigos”, de qual tribo você faz parte, para onde você viaja, que pensamentos você compartilha, quais idéias você persegue. O mundo precisa saber quais são os signos que você acredita que melhor te representam. Não basta alguns saberem, é preciso partilhar com o maior número de pessoas. Sei dizer que com a mesma rapidez que veio o fascínio, veio o tédio. O brinquedo perdeu a graça. Importante ressaltar que não critico nem o FB nem seus usuários. Ao contrário, gostaria de ter conseguido manter o entusiasmo. Ainda abro de vez em quando a página quando estou na maior solidão e dou uma espiadela nas fotos de alguns amigos. Coisa rápida e fácil. Mas não tenho mais interesse em conhecer os interesses de meus amigos. Fora, que são tantas as novidades que pipocam na tela que, mesmo que estivesse ainda apaixonada pelo negócio, não teria como estar em dia com ele. Reencontrei sim amigos, conheci sim amigos de amigos, descobri psicanalistas sérios que dividem suas pérolas com os colegas, fiquei sabendo de eventos, inscrevi-me num laboratório de psicanálise; oportunidades e mais oportunidades. No entanto, mesmo me rendendo às benesses do FB, resta a interrogação: com o fluente atualizar e consumir a enxurrada de fatos e fotos, opiniões, conhecimentos picados, amizades voláteis, teorias em mosaico, afetos escorregadios, crenças mancas, não corremos o risco de trocar “um” bem amado, bem sabido, bem pensado de qualquer categoria e cair nas garras da sedução da quantidade?
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Ao amigo Carlos ou Zé geriatra... Da longevidade
Quando perguntaram ao Mario Quintana, já com seus 87 anos, qual era o segredo de sua longevidade, o poeta, sem maiores ares de mistério, respondeu: "- Nem eu mesmo sei como cheguei até aqui... não foi por falta de descuido."
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Medo do medo
O medo é o estado que nos põe em posição de alerta frente aos perigos, permitindo-nos continuar vivos. Sabemos há longa data disso. Sem que temêssemos as doenças, descuidaríamos de certos cuidados com a saúde e estaríamos arriscando perder a vida. Atravessar uma rua movimentada sem o medo de ser atropelado, coloca igualmente nossa vida em risco. Tudo compreensível até então.
Mas o que dizer do medo de sentir medo? Ouço esse refrão constantemente nas falas de meus pacientes. Muitas vezes, está tudo na mais santa paz e o sujeito tem medo de perder a paz que conquistou. Outras vezes, assombra-se de medo de não encontrar um amor, aí quando encontra, apavora-se ao pensar que uma rajada de vento possa levar embora o amor que demorou tanto para chegar.
Em alguns casos, os medos são tão descabidos, que o próprio sujeito reconhece a impertinência daquele medo, mas ainda assim, não consegue silenciá-lo.
O ruminar dos medos faz adoecer e deixar de viver. Grande paradoxo, o mesmo medo que preserva a vida é o que impede que se viva.
Conheci um homem, que amargava um verdadeiro pavor de perder seu patrimônio financeiro. Quanto mais temia, mais dinheiro fazia e, segundo o próprio, mais acumulava para temer perder.
Outra morria de medo de ser traída. Vasculhava roupas, agendas, telefones, na ilusão de encontrar algo que incriminasse o marido. Nunca conseguiu confirmar suas suspeitas, mas não deixava de temer o abandono.
Uma adolescente ficava aterrorizada ao ver um cachorro. Já não saía mais de casa, a não ser de carro, com medo de dar de cara com um desses quadrúpedes de focinho molhado passeando pelas calçadas. Algum episódio envolvendo cachorros na sua história? Absolutamente não. O que poderia ser? Inúmeras hipóteses, mas nenhuma que legitimasse, na fantasia, sua intimidação por um cão.
Porém, o medo que mais intriga é o medo do medo. Quem sofre de crises de ansiedade, sabe bem o que é isso. O medo arrebata, toma conta, rouba a razão, desconcentra e descontrola, aniquila. Depois de apagado o incêndio, feito o rescaldo, o que resta? O medo. O medo ressurge das cinzas. Não é mais o mesmo medo do momento da crise. É um medo de outra ordem. Medo de que a situação de medo retorne. Um beco sem saída. Já ouvi um relato, onde o sujeito dizia preferir estar dentro da crise, por conhecer sua extensão e seus efeitos, do que fora dela, por não saber com que intensidade o medo o possuiria.
Dizem os românticos que o único antídoto contra o medo é o apaixonamento. Na paixão, as pessoas sentem-se potentes e inatingíveis, imunes a qualquer intempérie. Os amantes e amados costumam viver daquele sentimento desassossegadamente delicioso. A paixão é onipotente, auto-suficiente, petulante. O medo até compete com a paixão, mas perde. Vide as loucuras que embarcam aqueles que se deixam cair nas teias da paixão - "fall in love". Só tem um detalhe, esse destemor só dura o exato tempo em que a paixão transita entre os amantes.
Depois disso, o medo retorna e volta a incomodar, mas sem nome nem endereço, como uma carta sem remetente.
O fastio do medo empobrece o universo. Não há olhares de encantamento para noites enluaradas ou para réstias de sol pela porta entreaberta. O medo desgasta, corrói, desanima, reduz a proporção do bom e alarga a do ruim.
Ao longo da vida vamos sedimentando alguns medos antigos, adquirindo novos, deslocando para outros medos aqueles que não fazem mais sentido, armazenando nossa coleção em inúmeros compartimentos, até que um dia chega o dia do dia final, derradeiro, em que vamos perceber que uma montanha de medos não foi capaz de nos resguardar do “pior”. Quantos tolos medos, quanto sofrimentos à toa, quanto desperdício daquela substância boa que corre entre os neurônios.
Dá muita pena muito saber e pouco poder fazer quando se trata do medo. Ele tem autonomia, autoridade e passaporte, acompanha-nos aonde quer que estejamos, no Timor Leste ou ali na esquina, ele não respeita fronteiras, raça, sexo ou idade. Uma qualidade do medo devemos reconhecer. Dos sentimentos é o mais democrático e soberano, disso jamais podemos nos queixar ou lamentar.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Ah, esse Vinicius...
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Ano velho

Há muito que o término de um ano e início de outro deixou de ser significativo para mim. Nada pessimista ou desesperançoso, ao contrário. Todas aquelas expectativas das quais o novo ano era tributário, provocavam uma falsa sensação de onipotência nos mortais. O ano que passou raramente era franqueado com elogios e o vindouro carregava inesgotáveis promessas de felicidade.
Imbuíamo-nos de resoluções para o próximo ano. Era nele que nosso sucesso iria desabrochar, que íamos ter um corpo mais sarado, começar a fazer cursos por diletantismo, experimentar o novo de qualquer natureza, deixar maus hábitos, adquirir bons, ler aquele clássico que faz parte dos “x” livros que devemos ler antes de morrer, telefonar para aqueles que fizeram parte do nosso passado e que insistem em se manter no presente, recrutar novos amigos, melhorar de emprego, viajar sem fronteiras, limpar e organizar aquela pilha de CDs, trocar de carro, aprender a tocar um instrumento, tomar a iniciativa de dar o primeiro beijo; enfim, desbravar um novo mundo e tingir sua vida com ele.
Acontece que, prá bem da verdade, as vontades que têm muito pouca praticidade, acabamos por esquecê-las. Então, como bons seres utilitários que somos, postergamos mais uma vez nossos desgastados desejos para o próximo ano e por aí vai.
Faltando poucos dias para terminar 2010, tenho uma proposta diferente, por que não apostarmos na felicidade ainda dentro desse ano? Mais ou menos assim: “antes de terminar o ano eu vou me revelar, tomar um porre de champanhe bom, escrever aquela carta de amor, dar aquele telefonema, começar a ler o tal clássico, dizer que amo sem a garantia de reciprocidade, beijar sem pudor, brigar de vez ou fazer as pazes...” Assim, se nada disso der certo, você joga a responsabilidade para o senhor cronos, aquele que vai olhar pelo seu emprego, carro, limpeza e organização. O ano novo é sempre competente nesses assuntos. Agora, para estas outras coisas que não levam a lugar nenhum, use o ano velho. Simples, aproveite para arriscar neste restinho de ano já que o próximo está profeticamente designado a dar um jeito mágico em tudo. Não há o que temer. Feliz Ano Velho!
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
"Já morei em tanta casa...

"Já morei em tanta casa... ... que nem me lembro mais”, cantava Renato Russo no início dos anos noventa. Na época, havia um par de anos que morava em São Paulo e já pensava que a música se aplicava a mim, pois pipocava de uma morada a outra com certa frequência. Meus endereços e números de telefone mudavam tanto que minha família já não usava mais caneta para anotá-los, adotaram o lápis e a borracha. Quase trinta anos depois, me dou conta de que naquela época habitei sim mais casas do que gostaria, mas lembrava de todas elas. Hoje, acredito que algumas devem ter sido sequestradas da memória ou estão lá nos recônditos do meu inconsciente. Entre essas, há uma em especial, que mesmo que quisesse esquecê-la, tem vida própria e volta-e-meia aparece para mim em forma de sonhos, fisgadas ou cheiros, esteja eu perto ou longe de seu sítio. É a casa onde passei minha infância. Esta casa de madeira, verde com janelas e portas marrons, impregnou-se em mim de uma forma, que nem os mais sofisticados achados da ciência são capazes de fazerem-na ir embora. Mas vamos ao presente. Por ora, habito uma casa antiga, com madeira pesada no chão, pé direito alto, moldura desenhada nas janelas e portas, paredes largas, estrutura de pedras. Alguém caminha na sala e um rangido invade a casa toda, como se a madeira emitisse suspiros distantes. Pelas portas e janelas poderia atravessar um gigante. A casa impõe-se à leveza embrutecida da modernidade. É como se a anciã ranzinza dissesse, não adianta me decorar com móveis e objetos de vanguarda, eu sou uma casa velha, amarelada pelo tempo, sóbria e endurecida pela história. No subsolo, há mais da mesma casa, um porão que mais parece uma masmorra, o tal do Keller. Acho que Keller foi uma das primeiras palavras no idioma que aprendi. Todas as casas antigas têm um e se fala dele com certa deferência. No meu livro de alemão tem um capítulo destinado a esse espaço. É uma espécie de entidade a ser respeitada. Para mim, era somente um lugar inóspito, úmido, sem aquecimento, janelas ou madeira cobrindo o chão. No meu entender, lá se colocavam coisas velhas e inúteis que os moradores queriam tirar de vista, mas que não queriam se desfazer de jeito nenhum. Mas também é um depósito de comida, muita comida e bebida. Sacos e mais sacos de batatas e cebolas, litros e mais litros de água e cerveja. Os mantimentos que ficam armazenados nesse porão dá a impressão de que para os alemães uma famigerada guerra está sempre à espreita. Mario Quintana dizia que as casas, assim como as pessoas, possuem alma. Acredito que sim, mas não todas. Não me lembro mais de todas as casas por onde passei, mas saberia reconhecer em quais habita uma alma. Aqui é uma delas. Ancestrais portas e janelas, surrado chão de tábuas que estremecem ao menor toque, paredes grossas e calejadas dialogam noite e dia.
sábado, 18 de dezembro de 2010
A sustentável leveza da mala

Viajaria no dia seguinte e ainda não havia feito a mala. É no singular mesmo, não importa se serão quarenta e cinco dias ou dois, a mala é uma só. Sob certos aspectos, isso poderia significar estar subjetivamente mais afinada com o comportamento masculino do que com o feminino. Porém, não é bem assim. Não sou econômica com o tempo que gasto, na verdade ganho, no meu banho, tomando o meu café ou lendo o meu jornal. Minha economia resume-se às coisas que carrego dentro de uma mala. Tanto faz ir a Porto Alegre para um fim-de-semana ou aventurar-me por um mês em um lugar gelado. Porto Alegre, então, nem se fala. Lá, uso e abuso das roupas e calçados da minha irmã. Geralmente, vou só com a roupa do corpo. Pura preguiça e, claro, é muito bom o aconchego de ir para uma casa que sinto como se fosse a minha. Antes mesmo de ler Borges, já viajava “leve”. Não por consciência poética. É preciso nascer com alma para isso. Mas pelo fato de que não ter que pensar no que levar e carregar poucos pertences me proporciona uma deliciosa sensação de liberdade e independência. Aliás, meu estilo, ou falta de, já deu o que falar. Uma vez, no salão de beleza, sentada esperando para cortar o cabelo, o cabeleireiro me perguntou antes de passar a tesoura: “qual é o teu estilo?”. A amiga que estava comigo conta que eu parei, pensei, olhei para o espelho, olhei para ele um tanto sem graça e respondi: “meu estilo... meu estilo é meio assim... um pouco sem luxo, sabe?” A história foi compartilhada e, às vezes, esse “muito sem luxo” é aplicado indiscriminadamente a várias situações. Resumindo, arrumo minha mala no dia mesmo de viajar. Algumas vezes, apenas umas horinhas antes de sair de casa. Mas, por que falar disso? Sim, é claro, por que isso nem sempre sai barato. Já passei por muito embaraço. Fui a um evento onde a única mulher a usar calças ao invés de vestido de festa era eu. O pior, não tive como dar meia-volta, a anfitriã já havia me visto. Desconforto total. Hoje, em Zürich, onde mulheres e homens parecem estar desfilando em uma passarela constantemente, estou meio deslocada de novo. Cabelos lisos, louros e diligentemente arrumados, peles maquiadas, pescoços longos enrolados por cachemires coloridas, casacos saídos da capa da Vogue, ruas perfumadas pelas moças que passam. E eu aqui, muito sem luxo. Cheguei do jeito que vim, sem saber ainda com que roupa eu vou para me misturar a esse povão suíço, com seus cinco idiomas, com seus queijos furados, sua sofisticada variedade de chocolates e moeda própria. É, a Suíça não aderiu ao Euro, essa moedinha sem luxo. Parece que não fazer parte da Comunidade Européia e empenhar-se em manter seus Francos Suíços, seja a estratégia que proporciona aos suíços a desejada sensação de liberdade e independência.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
O amor de malas prontas

Quando o amor acaba, deixa um rastro. O amor não acaba e parte. Acaba e fica. O amor se fortalece e se alimenta de sua ausência. É uma espécie de corredor vazio. Não há nada lá, nem mobília, nem quadros, nem tapetes, nem luminárias. É só um longo e asfixiante breu que você tem que transpor. A cor desbotada das paredes, a falta de janelas, de ar, de luz natural, o assoalho sem brilho, o teto escuro.
Agora, quando o amor acaba, despede-se e vai embora sem lamentos ou desatino, é por que há muito tempo não estava mais lá. Se você não ficou atordoada, enraivecida, deprimida, agonizando sem estar morrendo, e se um corredor vazio é somente um corredor vazio, é por que quando partiu, o amor já estava alhures. Havia debandado antes, bem antes de fazer as malas.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (Woody Allen - 2010)
Categoria: NÃO é uma comédia romântica!
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Eutanásia assistida
Nos anos de 2003 e 2004, de repente, o tema da eutanásia foi parar nas telas dos cinemas. Assistimos a, pelo menos, três grandes filmes que abordaram, entre outras questões, o exercício da hierarquia do homem sobre a sua própria morte e as vicissitudes do ato em si.
Em “As Invasões Bárbaras” (Les Invasions Barbares, produção franco-canadense de Denys Arcand), o professor de filosofia, Rémy, que era jovem e sadio em “O Declínio do Império Americano”, envelheceu e adoeceu. Nessa história, a morte é convidada ilustre, pois vem para matar alguém que esteve vivo até seu último suspiro. Morreu da mesma maneira que escolheu viver, perto de seus amigos, antigas amantes, ex-mulher e do filho, com quem não tinha até então qualquer afinidade além do laço de sangue. Elegeu como cenário para acabar com sua vida a casa de campo onde costumava dividir com essas mesmas pessoas reflexões filosóficas, boas conversas e bons vinhos, enquanto protagonizava aventuras amorosas juvenis. Uma morte bem-vinda após uma vida bem vivida. Winnicott dissera uma vez que seu maior desejo é que estivesse bem vivo na hora de sua morte. Com o nosso professor de filosofia parece que se deu assim.
Já no espanhol “Mar Adentro”, do chileno Alejandro Amenábar, Javier Bardem se supera ao interpretar Ramón Sampedro, que não é um personagem fictício. Ramón foi um marinheiro que, aos vinte e seis anos, após mergulhar no raso, sofreu uma fratura que o deixou tetraplégico. Aqui é preciso encarnar aquele que existiu em carne e osso. Passados vinte e seis anos do acidente, Ramón, então com cinquenta e dois anos, não estava mais vivo na hora de sua morte. Desde que se tornou prisioneiro de uma cama, de onde só via o mundo através do quadrado de uma janela, Ramón não concebia o fenômeno de estar vivo como vida. O tempo que passava acordado, restrito as quatro paredes do quarto, era de uma angústia desesperadora. Somente em seus sonhos e devaneios conseguia extrair sensações que poderiam ser tomadas como vida. Como não era capaz de dar cabo de sua vida sem ajuda alheia, fez um apelo judicial para que a eutanásia lhe fosse concedida. Levou anos esperando que a justiça deferisse seu pedido, o que nunca aconteceu. Ao contrário, foi-lhe enviado a contragosto a visita de um cardeal para tentar dissuadi-lo da idéia. Por fim, contou com a ajuda de uma curiosa, a doce Rosa, que ao assistir a seu apelo pela televisão, resolveu visitá-lo imbuída do desejo de fazê-lo mudar a percepção que tinha sobre a sua vida.
Todo o grande nó dessa questão, é que Ramón - ao contrário de outros a quem a eutanásia é realizada sem maiores dilemas, pois já perderam há tempo o contato com o mundo externo - está lúcido, muito lúcido, demasiadamente lúcido. Inteligente, irônico, espirituoso, gentil, afetivo, sem contar com o olhar... Olhar profundo e angustiado, que te faz cúmplice num piscar de olhos. Convivendo com ele, as pessoas que o mantinham vivo encontravam sentido para suas próprias vidas. Na verdade, caso ele viesse a morrer, seus zelosos cuidadores perderiam muito mais do que seu paciente. No final, é a recém conhecida Rosa que o ajuda a realizar o ato de misericórdia que faria estancar sua agonia.
No norte-americano “Menina de Ouro” (Million Dollar Baby, superprodução de Clint Eastwood) acontece o mesmo. A diferença é que se trata de obra de ficção e a protagonista é bem mais jovem. Além disso, é um filme hollywoodiano, com seus efeitos e defeitos. A menina, Maggie Fitzgerald, protagonizada por Hilary Swank, é aprendiz de um treinador de boxe, Don, interpretado pelo próprio Clint. Após investimento intenso para aprender a lutar e convencer seu mestre de que era competente, Maggie torna-se uma das favoritas na luta. Aí chega o clímax do filme, uma luta valendo um milhão de dólares, que salvaria Maggie das garras de sua vil família. Só que ao invés de receber dólares, Maggie recebe um golpe certeiro de sua oponente e fica condenada a uma cama hospitalar, condição irreversível. Maggie, pede, implora, suplica a seu mestre Don, agora seu melhor amigo, que a ajude a morrer. Da mesma forma que Ramón, Maggie não suportava permanecer viva naquele estado.
O que há em comum nessas histórias? A eutanásia? Não. É a própria morte, clandestina ou não, pouco importa. É que a morte, ainda que seja desejada como um avatar da liberdade em seu estado mais puro, só é percebida como perda, e a isso já nascemos condenados.
Eutanásia, deriva do grego “euthanatos”, onde “eu” significa “bom” e “thanatos”, “morte”. Cometer a eutanásia é presentear o morrente com uma boa morte. Então, considerando a etimologia da palavra eutanásia, não faz sentido associá-la a um bálsamo, pois o instante da morte é sempre igual, tanto faz se vai se morrer de morte matada ou morrida. Seguindo esse fio condutor, a palavra que melhor se aplicaria para dar cabo a uma vida de dor e desespero, seria alguma que representasse “bom fim de vida”, aliviando e abreviando a vida de quem não deseja mais estar vivo.
O ato da morte deve ser análogo à suavidade e rapidez com que os cílios batem na pálpebra. Assim gostaria eu que fosse. Estivesse eu certa, não haveria mais sentido em se colocar em questão temas como a eutanásia ou suicídio.
O limiar entre o mal-estar de se estar vivo e o alívio de se estar morto, o que é um átimo, toma-nos de pavor e assombro. Quando falamos em sacrificar um animal para livrá-lo do sofrimento e deixá-lo morrer com dignidade, estamos somente justificando o nosso medo ancestral de lidar com a hora da morte. Não existe dignidade na morte, da mesma forma que não existe na vida. Acreditar que manter em rédea curta o domínio sobre a nossa morte paliará a nossa dor de existir... só mesmo nos filmes.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
O AMANTE - Dir. Francisco Medeiros (2010), do escritor e dramaturgo Harold Pinter - prêmio Nobel de Literatura em 2005
Sarah e Richard, interpretados magistralmente por Paula Burlamaqui e Daniel Alvim, dão vida a um clássico casal inglês que mora em uma casa no subúrbio de Londres nos anos 60. A história não poderia ser mais antiga e também mais atual. O casal para manter-se interessado um no outro, precisa ter um outro, ou outros, quaisquer outros que os façam esquecer temporariamente quem são e para quem são. Que todos os humanos desejam para além de um objeto exclusivo não é novidade. Ao contrário, só nos constituímos pela constante e impiedosa ameaça de que não somos o “tudo enfim” do outro. O terror de ser abandonado nos persegue desde os tempos mais remotos. Na verdade, desde quando, ainda bebês, percebemos que a mãe tem olhos para outros sítios além de nós. O mais insólito disso é que essa percepção trágica é, antes de tudo, estruturante. Para a psicanálise, é sobre essa premissa que se funda e se fundamenta toda a sua teoria. Porém, quando se trata da peça, o furo é mais embaixo. O conhecimento psicanalítico estofado com seus conceitos de castração, desejo, fixação, fetiche, não se prestam a dar nenhum conforto aos que escutam o delicado e denso duelo verbal entre Sarah e Richard, ao mesmo tempo em que, como bons "voyeurs", assistem à entrega das personagens às cenas de amor apaixonado. Do começo ao fim, temos a sensação de que ao deixarmos o teatro, retornaremos a nossa rotina da mesma forma que a deixamos. Doce ilusão. Tudo é muito perturbador: as litanias, os silêncios, as mordaças simbólicas, os gritos, as derrisões, os olhares, a crueza da luz e a lucidez das falas, sem falar na abstinência de sonhos – diferente, cabe ressaltar aqui, de fantasias – e o inefável. É, o inefável. É isso o que mais inquieta. Por mais que Sarah e Richard desnudem-se em confissões, resta algo de indizível, de inconfessável, que nem eles desconfiam do que se trata, mas que sabem que falta. A liberdade de poder expressar tudo o que se consegue não sustenta o delírio amoroso. Não há como passar incólume à dinâmica inconsciente que rege a relação de Sarah e Richard e que escapa a qualquer modo de apreensão. No entanto, tamanha é a beleza dos atores que, ingenuamente em vários momentos, pegamo-nos deslumbrados, capturados pela sensualidade, na medida certa, que orbita sobre o casal. Digo ingenuamente porque o texto é vertiginoso, desassossega, convoca. Mas seria apenas mais um texto que alude às delícias e ao deletério de um casamento, não fosse a sintonia visceral entre Daniel e Paula. Fico me perguntando como fazem para extrair de suas entranhas a presença daquelas personagens-entidades. Richard e Sarah somos todos nós, e o incômodo advém da pobreza de recursos que percebemos possuir para dar conta de uma relação amorosa, ao testemunhar, não sem comiseração, o despropósito que é devotar-se ao amor e buscar através dele, e só dele, uma gratificação que se contraponha ao pavor ancestral do desamparo existencial.
Bravo!
“No divã, como no amor, para mim o que conta é o que não posso dizer.” Jean-Claude Lavie, psicanalista
sábado, 13 de novembro de 2010
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